VOLTA PRO MAR, OFERENDA!

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BÁRBARA MYSSIOR

 

Dar palpite na vida dos outros é fácil demais para quem está de fora, mas há situações que de tão absurdas não consigo me poupar de exclamar: “chuta que é macumba”. Nessas andanças e destemperanças no universo materno-marital já escutei e participei de histórias das mais estapafúrdias (pelo menos para quem está de fora), e o mais fácil sempre é descer o sarrafo aos brados de “isso não é marido, é encosto”. Mas… E para quem está lá, no olho do furacão, no lerê do dia-a-dia… É fácil? É fácil ao menos enxergar que dá para ser melhor, que merecemos coisa melhor?

Quando eu tinha 19 anos fiz um curso de verão na Inglaterra para aprimorar o inglês. A faculdade estava de greve, eu estava num namoro meio esquisito que já estava passando da hora de acabar, meu pai tinha amigos morando lá, minha família juntou a fome com a vontade de comer e bora colocar a Bárbara no avião. Deu certo. Voltei craque no inglês, independente, descolada e sem vontade nenhuma de continuar aquele namoro que ficou no Brasil. Mas… Tem sempre um mas… Voltei 4kg mais gordinha. Sim, em um mês fui dos 60 para os 64kg. Vocês dirão que 64kg não é gorda. Hoje, eu também tenho certeza que não. Mas na época, eu me achava gorda sim. Gorda. Sim, pode fazer cara de horror, eu também faço. Vontade de chacoalhar minha versão 1999. Mas para uma menina de 20 anos, com a autoestima no pé e bombardeada todos os minutos de sua vida com a informação de que as modelos têm de 1,75 pra cima e pesam 50kg, 64kg era gorda sim.

Em Londres, de roupa larga e me achando gorda com 64kg

Bom, continuando a história, nessa época eu arrumei um novo namoradinho. Sim. Mais um. Conheci o moço na pracinha depois de um vestibular da PUC, demos uns beijinhos, ele a cópia escrita do Ricky Martin e eu ali, me sentindo gorda. Imagina a glória. Ele não me ligou. Eu liguei para ele, começamos a nos encontrar, eu naquele desespero de arrumar namorado, dei uma forçadinha de barra e pronto, tinha um namorado a cara do Ricky Martin para esfregar na cara das amigues. Hum, hum. Já soa meio estranho, né? Estranho mesmo era o relacionamento.

Lembrem-se que eu me achava gorda. E ele me chamava de gorda toda hora. Pegava na minha cintura lisinha e apertava dizendo que eu precisava emagrecer. Se eu sentasse e aparecesse uma dobrinha por cima do cós da calça ele jogava um moletom ou o que estivesse à mão para esconder alegando que eu estava gorda e que os amigos dele iam ver. Ele falava todos os dias que eu tinha sorte por namorar com ele porque eu era gorda e feia e ele era musculoso e bonito. E eu acreditava, porque lembrem-se, eu também achava isso.

Com 6 meses de namoro eu vi a luz e resolvi dar um basta. Terminei. Mas terminei achando que ia dar um tempo e pedir para voltar, e ele veria a burrice que fez e voltaria me tratando que nem uma princesa. Tá, vai esperando. Daí uma semana, quando pedi para voltar, ele já estava com outra. E não outra qualquer. Uma menina com quem ele já estava havia 4 meses. Lembram que falei que namorei 6 meses? Pois é. E foi aí que comecei a vomitar.

A princípio achei que vomitava de nervoso. Mas toda vez que comia algo a mais, ou algo “gordo” eu vomitava. E emagrecia. Vomitava e emagrecia. Vomitava em casa, no meio da aula na faculdade ia ao banheiro vomitar. No intervalo, no estágio, nas festinhas. Mas sempre tinha uma desculpa como “comi demais”, “bebi demais”, “comi algo estragado”, entre tantas outras. E essas desculpas valiam para mim porque não era algo consciente. Na minha cabeça, o emagrecimento era simplesmente uma consequência (positiva, óbvio, porque desde quando emagrecer pode ser negativo?) de algum mal estar. Eu simplesmente vomitava e emagrecia.

Auge da magreza, logo quando percebi que tinha algo errado

Poderia ter se transformado em tragédia. Mas foram poucos meses, pelo menos isso. Meus pais viram que eu só chorava e vomitava e me encaminharam para um psiquiatra. Àquela altura eu já tinha perdido 15kg em dois meses. Mas estava só passando mal, lembrem-se, na minha cabeça não era por querer. Com terapia e remédios, superei esse episódio, voltei para meus “gordinhos” 64kg (aff), consegui enxergar que o lixo era ele e não eu, comecei a namorar meu marido, formei e o resto é para uma próxima história.

Mas, por que eu contei tudo isso? Por que contei algo que ainda me dói tanto? Só para dizer que eu entendo. Eu entendo o que é estar do lado de dentro com todos que estão fora incrédulos por você se submeter a algo tão humilhante, tão destrutivo, eu entendo, eu estive lá. É justamente por isso que quando vejo a história da menina cujo marido está desempregado e passa o dia todo no whatsapp sem ajudar em nada com as crianças, sou a primeira a falar: “devolve para o mar essa oferenda”. Falo que “isso não é marido, é encosto”, quando escuto a história do marido que cobrava da esposa o corpo da Cláudia Leite pós-parto. E grito com toda a força dos meus pulmões “chuta que é macumba” quando a amiga me conta que o namorado termina toda vez que quer pagar de solteiro no Carnaval de Salvador e ela sempre volta no pós evento.

Já casada, aos 69kg, e infinitamente mais feliz e segura que no auge da magreza

Grito, grito mesmo, berro, me indigno, me emputeço, me estraçalho porque eu sei! Eu sei o que é se satisfazer com menos do que você merece, eu sei o que é achar que você é pouco, que você tem que aceitar e se submeter porque você não consegue nada melhor, porque você não merece nada melhor. Eu sei o que é ficar doente para atender às expectativas impostas a você. Eu sei. E isso não vale só para relacionamentos amorosos. Isso vale para o emprego com chefe abusivo, vale para a amiga que só te coloca pra baixo, vale para o professor que te humilha em sala de aula, para todo aqueles que em algum momento te fizeram pensar que você não é nada!

E vale para essa sociedade machista, misógina, objetificadora, que acha que mulher só vale enquanto mãe ou bunda. Que o bonito é a modelo anoréxica na passarela usando asas e vestindo um sutiã que tem que ser entupido de algodão para dar a aparência de voluptuosidade. Que o bonito é um bando de garotinhas de 16 anos se matando pela moda da barriga negativa. Lindo, maravilhoso é a capa da revista que arrumou uma ama de leite pro seu bebê, porque tinha que passar o tempo em que estaria amamentando malhando para voltar ao corpo “ideal” que a Vogue nos impôs. Vale para cada uma de nós que entrou em uma loja e descobriu que o maior tamanho nos cabides é 42, para cada uma de nós que entrou em um site de roupas para “gordinhas” e se deparou com meninas magras vestindo as roupas, para todas nós que ousamos usar um biquíni para ir ao clube e percebemos olhares de reprovação de homens e mulheres.

Por isso, por tudo isso eu grito: VOLTA PRO MAR OFERENDA! Porque comigo, meu bem, você não tem vez nunca mais.

Bárbara Myssior

Bárbara Myssior

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