GORDA X MAGRA: NÃO É UMA GUERRA

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GABI LESSA

 

A gente já sabe que a gordofobia é uma realidade. Todas as crenças colocadas na nossa cabeça levam à mesma comparação: magro é bonito, gordo é feio; magro é saudável, gordo não é saudável; magro é ativo, gordo é preguiçoso; magro é sorte, gordo é azar.

Isso está na nossa cabeça o tempo todo, e acaba levando a uma competição.

Eu tenho uma amiga de colégio que é dessas que sempre foi magra, sempre comeu muita besteira, e nunca engordou. Minha roommate no mestrado também é assim. Minhas três cunhadas são assim. E isso pra mim sempre foi algo claro: elas têm sorte, eu tenho azar. Quando eu ouvia qualquer uma delas reclamar do seu corpo, externar alguma insatisfação, eu era categórica: você está reclamando de barriga cheia.

Ai, minhas pernas são muito finas.

Você é magra, não reclama.

Estou com uma barriguinha.

Onde? Você é magra!

Eu não tenho bunda.

VOCÊ É MAGRA!!!!!!!

Eu era condicionada a isso. Magra, bom. Gorda, ruim. Portanto, magra não tem direito a reclamar, a não se sentir linda, a nada. Você é magra. Cala a boca. Ponto final.

Com o Gorda é a Mãe, eu fui me ajustando. Fui vendo que sempre existe alguma coisa para deixar a pessoa fora do padrão. E fui vendo que isso acontecia com a gente também.

As pessoas começaram a perguntar, por exemplo, por que a Gabi Ayres era do Gorda. “Ela não é gorda!” E logo isso veio pra mim e pra Bárbara também. “Ah, mas você não é gorda mesmo de verdade.” Fomos vendo que a guerra é enorme. A galera fitness acha um absurdo a gente falar que gorda pode ser saudável. As magras complexadas com alguma coisa (baixinha, canela fina, sem peito, etc, etc, etc) acham que aqui é lugar só de plus size, que elas não se encaixam. As gordas que não têm o formato de corpo ampulheta como o meu acham que ah, ser elegante com essa cintura é fácil, queria ver se fosse quadrada. As que são mais gordas que a gente acham que nós somos magras, nossa vida é fácil. Quem é tamanho maior (acima do plus size) acha que só o plus size tem visibilidade. Vocês têm ideia de quantos comentários nós recebemos de, “ah, mas se eu tivesse o seu quadril, cintura, cabelo, rosto, canela, branco do olho” eu também usaria essa roupa? Eu, que passei a vida inteira me achando inadequada e criticando quem era mais magra que eu e se sentia inadequada, percebi que eu também sou fonte do mesmo pensamento.

E tem mais. A gente fez aquele questionário há pouco mais de um mês (se você não viu, o link é esse e ainda está em tempo de responder). Queríamos conhecer as nossas seguidoras melhor e, de quebra, ter um norte para a coleção cápsula da GeM. Os resultados foram bem surpreendentes.

Das respostas que temos até agora, 11,1% das seguidoras vestem abaixo de 42, 22,2% vestem 42 e 8,3% vestem 44. Ou seja, 41,6% das nossas seguidoras vestem tamanhos considerados “normais”. (Sim, eu sei, o 44 é um limbo entre o padrão e o plus size. Mas mesmo se excluirmos as que vestem 44 da conta, ainda temos 33,3% dentro do padrão). Aí perguntamos se você se sente fora do padrão de estética. Adivinhem as respostas? 80,6% responderam que se acham gordas. E 63,9% já deixaram de ir a um evento por se sentirem desconfortáveis com seu corpo.

Pausa para você fazer e refazer essas contas e processar essa informação. É de dar nó no cérebro, né?

Nós temos seguidoras que vestem menos de 42 e, não só se acham gordas, como se incomodam com isso o suficiente para deixarem de ir a algum evento.

Percebeu onde eu estou querendo chegar com isso?

É o seguinte:

NÃO É UMA GUERRA!!!!!

O padrão é cruel com todas. Tenho amiga alta, magra, corpo de modelo, mas que se acha uma tanajura por ter corpo triângulo. Tenho amiga baixinha, magrinha, que tem que ajustar o PP e sofre por não achar roupa nem sapato. E sabe o que eu sempre achei dessas pessoas, minhas amigas, pessoas que eu amo? Que elas estavam reclamando de barriga cheia. Que elas não sabiam o que era ser gorda. (Detalhe: uma das amigas baixinhas que tem dificuldade de achar roupa é minha amiga desde os 13 anos. Ela viu todas as minhas fases. Mesmo quando eu vestia 42 e achava que estava obesa, eu continuava achando que ela tinha mais sorte que eu. E se você for pensar, eu estava bem mais próxima do padrão que ela.) Pessoas que eu amo! E eu não parava pra pensar que elas sofriam com o corpo, não perguntei. E nem contei. Muitas delas só foram descobrir meu sofrimento com os posts no blog.

E olha, isso não mudou do dia pra noite com o blog. Aconteceu até recentemente. Eu lembro de entrar no Garotas FDP pela primeira vez, ver foto da Jamille, e pensar, “o que essa magra tem de fora do padrão?”. (Sorry, miga, mas pensei.) E mais recente ainda. Comecei semana passada um curso muito legal de Mindful Eating (mais sobre isso depois). Quando cheguei lá no primeiro dia, vi algumas pessoas magras e me surpreendi. Sim, semana passada. Com mais de seis meses de blog, escutando histórias das pessoas mais diversas, tendo acesso às respostas do nosso questionário, eu me surpreendi. Como se não houvesse gente magra com problemas com alimentação no mundo. Como se não tivesse gente magra que se acha gorda. Foi questão de segundos, mas eu me surpreendi.

Que loucura, né?

Então vamos parar com essas manias entranhadas na gente. A gente já aprendeu que pode tomar manga com leite, que não tem problema lavar cabelo menstruada… Já combatemos tanta crendice. Vamos concluir também, com base em toda a informação que temos, que não precisa de guerra entre magra e gorda? Vamos concluir que formato de corpo e número na balança não definem nem saúde e muito menos felicidade? Vamos parar com guerrinha?

Amanhã, quando você ver aquela sua amiga magra comer uma barra de chocolate, que tal não concluir automaticamente que a vida dela é mais fácil que a sua? Dá um trabalho mental enorme, eu sei. Mas é um efeito cascata. Se eu não entro em guerra com a magra, com a musa fitness, nem com a tamanho maior, talvez elas não entrem em guerra com alguém. E se ninguém entrar em guerra, a gente acaba descobrindo que o problema não era com a gente e sim com o padrão. Legal, né? Bora praticar?

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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