O QUE TEM POR TRÁS DISSO?

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Há um tempo eu fui em um workshop onde fizemos uma dinâmica de grupo para sabermos qual é a primeira impressão que deixamos nas pessoas. Tudo bem que a dinâmica foi feita ao final do workshop, então já tinha dado tempo de conversarmos e rirmos um bocado. Foi nos dado um envelope com alguns papeizinhos e, à medida que as pessoas se levantavam, escrevíamos nos papeizinhos o que achávamos daquela pessoa com base no que víamos. Pois bem, ao final recebemos os envelopes com as opiniões que as pessoas tiveram da gente. E foi aí que o bicho pegou para mim. Entre várias opiniões estava uma que me tirou a graça: “se esforça para ser engraçada, o que está por trás disso?” Isso foi em novembro e essa pergunta me assombra até hoje. O que está por trás disso?

Já pude me afogar em considerações e nunca achava uma resposta; até essas férias. Estava eu num dia muito ruim, minha autoestima no chão. No geral, consigo ligar o “foda-se”, mas há dias em que o bombardeio de regras e soluções e padrões para o “problema” gordura são demais para suportar. E nesse dia eu estava um caco. E nesse dia eu precisava usar um biquíni.

Cada uma tem seu ponto fraco, né? E o meu é a barriga. Até eu casar eu tinha uma barriga retinha, durinha, com um umbigo perfeito. Depois… Ah, depois. Juntou o peso que ganhei depois de casar, com o parar de fumar, com o efeito sanfona dos famigerados remédios para emagrecer, mais duas gestações, e minha barriga virou terra de ninguém. Passei de não ter cintura por ter um porte atlético, para o não ter cintura porque tenho um barrigão. E esse barrigão me incomoda. Muito. Muito mais do que os 30 kg que ganhei desde que me formei, em 2002. Muito mais do que o tanto de celulite que eu tenho na bunda e nas coxas, muito mais do que o queixo duplo que insiste em ficar mesmo quando todas as outras dobrinhas se vão. Muito.

O antes: antes dos filhos, antes da correria, quando eu usava biquíni normalmente (mas ainda assim escondendo a barriga na foto)

Mas voltando ao biquíni. Estava na casa da minha cunhada no Rio e precisava colocar um biquíni para ir à praia quando, na verdade, a vontade era colocar uma burca. E minha cunhada é massa, legal mesmo, mas é magrela e fitness e corre, ou seja, por mais legal que ela seja, ela é o padrão. E passar dia após dia olhando na cara do padrão arrebentou a gordinha aqui. Não pelo que eu sou, mas pelo que eu era. Ela me lembrou do que eu fui. E eu já fui o padrão. Sabe aquele padrão que não existe? Pois é, eu já fui o padrão que não existe. E eu existia. Existia, mas não tinha marido, filhos, casa, estudos, trabalho com filhos, trabalho com casa, correria… Tudo o que usamos como desculpa para pararmos de ir à academia, de fazer esportes, de ter uma vida ativa, de comer direito, mas que, no meu caso, sinceramente, não era desculpa, era a realidade. À noite, depois que a casa está tranquila, eu não penso em comer uma salada e dar uma corridinha de meia hora, eu quero uma taça de vinho e Netflix. E, na maioria das vezes, eu estou ok com isso. Mas na praia… Na praia me senti uma hipócrita. Como posso chegar aqui e falar com todas as letras um “big fat” AME-SE se eu me sinto o cocô da mosca do cavalo do bandido? E foi nessa hora que descobri “o que está por trás disso”.

Vocês lembram que eu falei que eu era o padrão? Pois é. E quando eu era o padrão, eu não estava nem aí para ser legal. Tipo que se você quisesse gostar de mim, ótimo, se não problema seu. E aí eu comecei a engordar e os olhares dirigidos a mim mudaram. E eu fui mudando com eles. Comecei a sentir uma necessidade imensa de ser “gostada”. Sim, queria que as pessoas gostassem de mim APESAR DE EU SER GORDINHA. E virei um estereótipo. A gordinha engraçada. A que faz piada de si mesma, a que faz piada com a comida, a que se zoa antes de ser zoada. E esse é o cerne da questão. Por que alguém me zoaria? Por que alguém educado apontaria o dedo para falar que estou gorda? Por quê? Porque é isso que as pessoas fazem. Porque é inadmissível ser gordo nos dias de hoje, porque quem é gordo é doente, é preguiçoso, é feio. E o medo de “sair da linha”, de estar de mau humor e ser um tiquinho mais ácida que o normal, e virar a “gorda mala”? Para os olhos da sociedade eu já tenho tantos defeitos que não preciso de mais esse, né?

Mas aí, no auge da guerra do espelho versus o biquíni, minha mãe me viu chorar. Uma mulher de quase 39 anos, 1,75 e 95kg chorando. Meio difícil colocar no colo, né? Mas minha mãe me lembrou que eu sou linda. Que meu marido olha para mim com amor, que meus filhos me acham a mulher mais extraordinária que já pisou na face da terra e que ela me acha perfeita, do jeitinho que sou, mesmo que às vezes pegue no meu pé. E minha cunhada? Minha cunhada também é perfeita, também tem um marido, meu irmão, que olha para ela com amor, tem pais que a acham extraordinária, tem uma cunhada chata que faz textos falando que ela é fitness e pega no pé dela. Nós somos perfeitas. Nós somos amadas. No mundo tem espaço para ambas (ainda que que eu use uma porção maior dele…desculpa, não resisti à piadinha). Uma não precisa mudar para que a outra exista. Uma não precisa se magoar para que a outra a aceite. Como a Gabi escreveu semana passada, NÃO É UMA GUERRA. As mulheres não precisam ser algozes umas das outras, nós não precisamos nos matar por um padrão social que nos é imposto todo santo dia pela mídia, não precisamos de mais essa pressão. Já temos trabalho demais sendo a Mulher Maravilha, não precisamos de, além de tudo isso, nos preocupar com o quê a vizinha do prédio da frente acha da nossa bunda (ou barriga, para cutucar meu ponto fraco). CHEGA.

Ah, e se alguém apontar o dedo, ou rir, ou zoar, ou comentar sobre seu pneuzinho, queixo duplo, bunda, barriga ou o c****ho a quatro, quem está errado é o Sr. Educação que fez isso e não você. Ser gordinha não é errado, errado é sentar no próprio rabo para falar dos outros. De todas as características que se pode ter, ser gordinha está longe de ser a pior delas…

(E aproveitando, que tal pegar o seu ponto fraco e transformar em um jeito de ganhar o Desafio Em Paz Com Meu Corpo? Veja as regras aqui e participe!)

Bárbara Myssior

Bárbara Myssior

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