O OSCAR, OS PADRÕES E A REPRESENTATIVIDADE

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on linkedin

GABI LESSA

 

Eu sou uma apaixonada pelo Oscar. Todo ano eu faço uma maratona para assistir ao máximo de filmes indicados possível. E todo ano eu me sento à frente da TV quando começa a transmissão do tapete vermelho e só vou dormir quando o prêmio de Melhor Filme é anunciado.

Este ano, o Oscar caiu na semana da mulher, e o tom foi inclusivo. Foi lindo, na verdade. A fala de abertura já foi certeira sobre as recentes denúncias de abuso em Hollywood. O foco foi nos imigrantes, nas mulheres, e na representatividade. Falou-se abertamente sobre a importância da representatividade, sobre como um filme como Pantera Negra é importante por começar a colocar essa ideia na cabeça das pessoas de negros como heróis. Falou como Mulher Maravilha calou a boca de todo mundo que achava que filme de super-herói não podia ter uma heroína como personagem principal. Até para apresentar o Oscar: normalmente, a melhor atriz do ano anterior apresenta o Oscar de melhor ator e vice-versa. Mas dessa vez o prêmio de melhor atriz foi apresentado Jodie Foster e Jenniffer Lawrence. A vencedora, Frances McDormand, pediu a todas as mulheres indicadas a Oscars que se levantassem. Foi lindo mesmo.

A representatividade está chegando a todos os lugares, até Hollywood. E isso me lembra de um detalhe das premiações. Eu acompanho o Oscar desde criança. Pelo menos nos últimos 20 anos (eu acompanhei e lembro, mas também conferi no Dr. Google), Frances McDormand é a mulher mais gorda a ganhar o Oscar de Melhor Atriz. Sim. A Frances McDormand, com aquele corpo malhado. Ela é a menos magra em 20 anos a ganhar este prêmio. Já houve mais velhas, claro, como Meryl Streep e Helen Mirren, mas ambas com “corpão”. Não me lembro, mas sei que quando eu era pequena, em 1991, a Kathy Bates ganhou, e ela nunca foi magra, então tem isso. Mas nos últimos 20 anos? Não houve nenhuma melhor atriz mais gorda que Frances McDormand.

Kathy Bates em 1991: a última gorda ganhar o Oscar de Melhor Atriz

Houve indicações. Raríssimas, mas houve. Imelda Staunton, que é um pouco mais gordinha (leia-se um corpo bem padrão para a idade dela), já foi indicada. De realmente gorda, a única nesses vinte anos foi Gabourey Sidibe, indicada por Preciosa em 2010. E…só.

Eu sei que você está aí pensando, “não, isso não está certo, tem aquela, a…” Não. Como Melhor Atriz em Papel Principal, não tem. Houve algumas (poucas) vencedoras e indicadas como Melhor Atriz Coadjuvante. Mo’Nique ganhou em 2010 pelo papel de mãe da Gabourey Sidibe em Preciosa. A poderosíssima Octavia Spencer ganhou em 2012 e já foi indicada mais duas vezes, inclusive esse ano. Melissa McCarthy já foi indicada. Jennifer Hudson ganhou por Dreamgirls antes de emagrecer. Que eu me lembre, só. Mas todas em papéis coadjuvantes. Nenhuma em papel principal.

Todos esses filmes com gordas indicadas caem em uma de duas categorias: A) drama independente onde a questão da obesidade é ponto crucial da história; ou B) filme grande onde a gorda é o alívio cômico. Ponto.

Sabe porque a maioria das indicações é para Atriz Coadjuvante? Porque não existe mocinha gorda. A gorda não é o interesse romântico. A gorda não é a heroína.

É interessante que o Jimmy Kimmel tenha falado de como as pessoas falam que o Super Homem não pode ser negro porque ele não é negro nos quadrinhos. Ele citou esta preocupação exagerada com a “realidade” que as pessoas usam para justificar a falta de representatividade nas telas.

Bom, se formos pensar na realidade, qual era o tipo de corpo mais comum em 1813, quando Orgulho e Preconceito foi publicado? Definitivamente não o da magérrima Keira Knightley. Mas foi ela a indicada ao Oscar por interpretar Elizabeth Bennet na versão mais recente do filme. Porque quem quer alguém com pneuzinhos na barriga como mocinha em um romance?

Sem contar todas as mães, né? Se formos pensar em realidade, qual é o corpo médio da maioria das mães? As que responderam o nosso questionário citaram flacidez, estrias, pneus, corpos que, segundo elas, não são “nem gordos nem magros”. Mas esses corpos não estão no Oscar.

Filme recente sobre maternidade: Jennifer Aniston é a ex-mulher mãe de dois trocada pela amante mais nova.

São vários os filmes que mostram mães de filhos pequenos em um casamento estagnado, ou sendo deixadas pelos maridos, ou se desdobrando em mil funções. Teoricamente, filmes mostrando acontecimentos cotidianos, esses que a gente escuta falar nos grupos de mães todos os dias. Mas os corpos não são tão cotidianos assim. Em geral as refeições mostradas nesses filmes são donuts no café da manhã, pizza, muitos drinks e potes e mais potes de sorvete. A maioria das personagens não passa o dia na academia nem faz dieta. Costumam ser personagens “normais”, donas de casa, jornalistas, empresárias. (Eu sou jornalista e nunca entrei em uma redação onde todas as mulheres tenham corpos malhados, mas talvez exista.) Mas mesmo sendo, teoricamente, pessoas comuns, em geral, essas mães dos filmes não têm uma barriguinha flácida, um pneu que incomoda, estrias. Em geral, elas não vestem aqueles tamanhos bem comuns: 40, 42, 44. Não vou citar números maiores porque nem um 38 elas vestem, quem dirá um 48. Elas costumam ser a Jennifer Aniston ou a Julia Roberts ou a Mila Kunis.

Eu poderia dar mais mil exemplos aqui, mas todo mundo sabe onde eu quero chegar, né? A cerimônia do Oscar este ano foi linda. Todas as falas sobre inclusão, representatividade…estava passando da hora. Eu comemoro que tenhamos mais mulheres, mais negros, mais latinos sendo representados nas telas, ganhando prêmios, sendo reconhecidos por seu trabalho. Mas eu não posso ignorar este um ponto que está tão longe da representatividade. Todos os corpos são lindos. Mulheres de todos os tamanhos podem viver um grande amor, salvar o mundo, descobrir um furo de reportagem. Mulheres de todos os tamanhos assistem aos filmes, ao tapete vermelho, às premiações, e não se enxergam. Eu não me enxergo, minha amiga vinte quilos mais magra com uma barriguinha não se enxerga, minha amiga magra com os peitos caídos não se enxerga. E isso é perigoso. Tão perigoso quanto sempre foi para os outros grupos que não se viam representados (imigrantes, negros, gays) e que foram citados no Oscar deste ano.

Eu fico muito feliz que esses grupos possam, aos poucos, começar a se ver na tela. Eu fico muito feliz pelo feminismo sendo citado tão veementemente (mais sobre feminismo no Dia da Mulher). E eu fico muito feliz que tenhamos tido a Octavia Spencer indicada a mais um Oscar, e a Keala Settle cantando lindamente. Mas ainda é pouco. E eu realmente espero que a representatividade chegue também para as gordas, as flácidas, as que não se encaixam no padrão de estética hollywoodiano. Quem sabe, em breve, não teremos uma atriz com um pneuzinho naquele tapete vermelho? Seguimos lutando para isso.

Gabi Lessa

Gabi Lessa

Deixe um comentário

Sobre Nós

O Gorda é a mãe é um blog sobre autoestima, positividade corporal, feminismo, maternidade e mais um bocado de coisa interessante. Vem com a gente!

Posts + Recentes

Curte Aí!

Insta Feed