ATÉ A CINDERELA É GORDOFÓBICA

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GABI LESSA

 

Ontem, fui levar meus filhos de 3 anos ao teatro para ver Cinderella – O Musical. Uma peça muito bem produzida, com belíssimos cenários, figurinos e efeitos. E com uma pegada diferente: revolucionária e gordofóbica.

“Ah, pára de mimimi, eu amei a mudança.” Legal. Se topar, leia até o final. Porque a gente sempre pode querer mais mudança.

Enfim. Cinderela revolucionária. Para essa peça, deram uma alterada na história da Cinderela. Ela tem um amigo revolucionário que quer implantar a democracia e ela vai ao baile para tentar falar com o príncipe dos ideais revolucionários. Por fim, por influência de Cinderela e seus amigos, o príncipe decide fazer eleições para primeiro-ministro.

Questões narrativas à parte (achei que o roteiro acabou ficando um pouco confuso), é sempre interessante quando se fazem releituras. Não era o meu objetivo com crianças de 3 anos, mas como jornalista e mulher, não deixo de apreciar o objetivo da produção: transformar a protagonista em alguém com ideais, e não apenas com o sonho de dançar com o príncipe. Uma protagonista que se importa em ser bondosa (o lindo “be kind” do live action da Disney de 2015) e um príncipe que quer ouvir o povo em vez de viver isolado em bailes. Seria um belo objetivo, não é?

Pois é. Seria. Uma beleza. Mas a tão bondosa peça se esqueceu que bondade não começa com a nobreza se preocupando com os pobres e todos felizes na aldeia. Ela começa de forma bem mais simples, em como você trata a pessoa que está do seu lado.

Ao adultizarem o tema da peça, decidiram adultizar também o humor. Piadas políticas, piadas sobre namoro…e gordofobia. O alívio cômico na peça não eram ratinhos divertidos. Era a irmã gorda. Aliás, alívio cômico não. Porque não houve alívio nenhum. Foi simplesmente um show de bullying do começo ao fim.

Nesta versão da peça, uma das filhas da madrasta é gorda. E o humor é feito com a madrasta preferindo a filha magra e humilhando a gorda. Falem o que quiserem da Disney e seu desenho produzido em 1950. Pelo menos nele as irmãs disputavam entre si, mas a madrasta não tinha uma preferência, ela queria que qualquer uma de suas duas filhas se casasse com o príncipe. Mas não no musical. Nele, a gorda Charlotte é zombada pela mãe e por todos. Ela arrota o tempo todo (um humor realmente evoluído), e escuta coisas como, “sua anta, você está enorme de gorda. Vai correr!”

A gorda é humilhada o tempo todo, para gargalhadas da plateia. Em um determinado momento, após uma das muitas piadas ridículas, meu filho de 2a11m perguntou, “Mamãe, por que está todo mundo achando graça? Eu não achei graça nenhuma.” É, mas todas as mães ali, pelo visto, acharam. Eu não soube o que responder.

Cinderela defende a todos de comentários cruéis, sempre pregando que bondade está na moda. Todos, menos a irmã gorda. Afinal, “você está imensa” não é ofensa, é piada, né? A irmã magra se apaixona pelo revolucionário e fica amiga de Cinderela. Até a madrasta, quando vê que Cinderela vai se casar com o príncipe, se arrepende e escuta de volta um meigo, “Eu te perdôo, mãe.” Mas a gorda? Ninguém pede desculpas pra ela não. Ninguém se apaixona por ela. Ninguém cogita que pode ser ligeiramente traumático que a mãe a chame de balofa e todos riam. Nem a fofinha da Cinderela.

E assim acaba a bela peça. Com a mensagem de que pobres e ricos devem se unir, mas que rir da coleguinha gorda na escola não te exclui da categoria “seja bondoso.” Contanto que você queira democracia em vez da monarquia, não tem problema rir da gorda. Gorda serve pra ser piada mesmo.

Saí triste do teatro. Muito. Porque se fosse Cinderela tradicional, eu já sei que é um conto de fadas que coloca a mulher esperando o príncipe encantado. Já sei que valoriza o vestido e a riqueza. Já sei que é antiquado e que eu preciso ensinar uma certa análise crítica aos meus filhos. Sei o que esperar. Mas quando a peça se propõe a ser moderna, revolucionária, inclusiva, politicamente correta? Aí é um golpe no peito. Porque é aí que a gente vê que em 2018, mais do que em 1950, a luta contra a gordofobia não está na lista dos itens politicamente corretos. Pessoas que pedem inclusão de todas as minorias (e não achem que eu não peço, eu sou ferrenha defensora da inclusão de todos), nem sequer pensam em pedir a inclusão dos gordos. E eu sei, elas não fazem por mal. Elas não querem humilhar ninguém. O que torna tudo pior. Porque não são algumas poucas pessoas cruéis. São todas as pessoas boazinhas. A gordofobia é algo tão distante na cabeça delas, que elas nem cogitam a possibilidade daquilo ali ser….adivinhem?…sim, politicamente incorreto.

Eu sonho com uma Cinderela revolucionária. Quando fizerem uma peça em que a princesa é independente, feminista e gorda; o príncipe é lindo, desejado e negro; a fada madrinha chega em uma cadeira de rodas; e uma das irmãs não quer se casar com o príncipe porque é homossexual, aí eu vou aplaudir de pé. Mas esta peça não foi revolucionária. Foi mais do mesmo. Um duro lembrete de que ainda temos muito que evoluir para que os gordos sejam pessoas na mesma categoria de importância dos magros.

E viva a democracia do Príncipe Topher…

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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