A PRESSÃO DE SE VIVER NO PRESENTE

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GABI LESSA

 

A gente escuta todo dia, né? Viva no presente. Aproveite cada momento. A gente recebe aqueles textos sentidos no Whatsapp falando do tempo com os filhos, do tempo para si mesma, do tempo para o casal. Aquelas tirinhas com um pai ou uma mãe no celular ou no computador falando que não tem tempo e aquele filho eternamente traumatizado. E as supostas falas de alguém que está no hospital com câncer terminal? Se eu soubesse que minha vida ia acabar, eu teria passado mais tempo com a família, não teria me preocupado com nada. E a gente se sente péssima, a pior mãe/esposa/filha/amiga do mundo.

Porque a gente não consegue estar presente o tempo todo. A gente fala que está ocupada (e está mesmo), e a gente tem surtos, e a gente quer fugir. A gente ama as crianças, mas quer um momentinho sem elas. A gente ama a mãe, mas estoura se ela dá um palpite atravessado. A gente ama as amigas, mas cancela um programa porque tem um trabalho pra entregar. A gente ama o marido, mas tem dias que a gente não quer papo. Que grande merda a gente é. Se eu morrer semana que vem, eu vou me arrepender do tempo no celular, da hora que eu me tranquei no banheiro pra ter paz, do programa cancelado com as amigas, da semana que eu passei sem ver os meus pais, da noite em que eu virei pro lado em vez de protagonizar uma cena digna de romance de Hollywood com o marido.

Pois deixa eu contar o que eu faria se eu descobrisse que eu tenho uma semana de vida. Eu pararia de trabalhar. Que se fodam os clientes, a empresa que teve uma demanda urgente, o blog, as seguidoras. Eu não ia mandar as crianças pra escola, pra natação, pra nada. Eu daria folga pra babá. Eu pediria meu marido, meus pais, todo mundo que eu amo para tirarem uma semana de folga do trabalho. Eu deixaria de tomar remédios pra dormir. Afinal, daí uma semana eu ia poder dormir pra sempre. Não ia dar tempo de ficar doente. Eu passaria os dias curtindo cada segundo dos meus filhos. Eu deixaria eles ficarem acordados até tarde, e deitaria no quarto com eles para vê-los dormir. Quando, exaustos, eles dormissem, eu faria sexo selvagem com o marido. Faria juras de amor. Eu passaria momentos ternos com os meus pais. Eu não brigaria com ninguém. Eu ia deletar as minhas redes sociais.

Mas adivinha? Não vai dar pra parar de trabalhar. Nem eu, nem o marido, nem ninguém. Não vai dar pra deixar as crianças sem escola. Porque eu acho (só acho) que se acabar demorando 50 anos pra eu morrer, eu e meu marido vamos pra debaixo da ponte depois desse tempo todo sem trabalhar, vivendo de amor. E os meus filhos serão ligeiramente frustrados por não terem estudado nem terem feito nada na vida sem a praga da mãe a tiracolo.

“Ah, Gabi, mas não precisa ser radical! Você está indo para um extremo!”

Siiiim! Que bom que você percebeu. É óbvio que ninguém quer que todo mundo pare de trabalhar e estudar e viva a vida grudado. É óbvio que o objetivo é simplesmente nos fazer ver que precisamos de equilíbrio, que trabalhar 16h por dia e não ter tempo pra família não vai valer a pena. Mas tem uns pedacinhos aí que são bem menos óbvios, né?

Porque equilíbrio não é igual pra todo mundo. Tem gente que encontra o equilíbrio com um dos pais parando de trabalhar e ficando em casa com os filhos. Tem gente que encontra equilíbrio trabalhando 12h por dia e passando as outras 12h focadas na família. Tem gente que encontra o equilíbrio tendo babá, tem gente que encontra equilíbrio fazendo as coisas sozinha, tem gente que encontra saindo com as amigas…

Mas nunca parece com aquela certeza absoluta que encontramos o equilíbrio, né? Bom, pra certas pessoas acho que parece. Tem gente que garante que tem aquela vida maravilhosamente equilibrada. Mas eu sou dessas que sempre acha que está desequilibrada. Porque eu tenho dias de irritação em que eu estouro com as crianças, com o marido, com a sócia, com todo mundo. E eu tenho aqueles momentos em que eu estou com as crianças, e está tudo fofo, mas eu vou lá e dou aquela olhada no celular e perco o que a criança falou e quase morro de culpa. Mas se eu deixo o celular em casa, eu me arrependo de não ter filmado aquela fofura. E se eu filmo, eu fico pensando se eu não deveria estar curtindo o momento em vez de me preocupar em filmar. E se eu não me distrair dando uma olhada no celular, eu acabo, de todo jeito, dando aquela viajada. E por que, meu Deus, que eu não consigo focar 100% nos meus filhos? Mas tá vendo, eu não largo a culpa materna, assim eu nunca vou me realizar profissionalmente. Meu blog não faz sucesso porque nessa de home office eu acabo me dedicando menos do que deveria ao trabalho. Lembra da palestra daquela que tem milhões de seguidores e falou que entre vídeos e fotos ela passa umas 15h por dia trabalhando? Aff, eu só penso em criança e trabalho. Aposto que é por isso que eu estou deprimida. Eu preciso separar tempo pra mim, me cuidar, curtir com as amigas, namorar o marido. Sério, eu sou muito egoísta e fraca mesmo, todo mundo vive com menos horas de sono e eu aqui tomando remédio e deixando filho com a babá pra tentar cuidar da minha saúde. Quem tem saúde é quem sai com as amigas. Ou quem não tem babá e brinca na terra com as crianças todos os dias.

Ficou grande esse parágrafo? Dava pra ficar bem maior, garanto. Porque o diabo do equilíbrio é difícil pra caramba de encontrar. Pra tudo que eu faço, existe a culpa da atenção plena martelando na minha cabeça. Você vai se distrair. Você vai perder um momento que não vai mais voltar. Você vai priorizar alguma coisa e perder outras. E você vai se sentir culpada por tudo isso. Porque a gente é humana. Mas tem dia que parece que só a gente é essa humana perdida louca imperfeita. Sou só eu que me sinto impotente diante de cada post que nos lembra do foco, das prioridades, do viver 100% no presente? Só eu que choro igual idiota na frente do computador com essa auto-cobrança constante? Ou mundo tá deixando todo mundo doida?

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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