COMO DIZER A UMA ADOLESCENTE QUE ELA ESTÁ GORDA?

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GABI LESSA

 

Hoje, em um grupo de mães que participo, houve uma pergunta bem simples: como dizer a uma adolescente que ela está engordando?

As respostas foram muitas. Havia as que diziam que devia ser dito de forma direta e sincera. Havia as que sugeriam uma mudança na alimentação e uma abordagem preocupada com a saúde. Havia as que diziam que não se devia dizer nada, afinal, não há problema em ser gorda. E isso, claro, levou a uma discussão sobre gordofobia e saúde.

Diante disso, resolvi contar um pouco da minha história.

Magra aos cinco anos

Quando criança, eu era magra. E aí fui chegando perto da puberdade. Sabe aquela fase antes da menstruação em que menina não tem corpo, não tem forma, e todas ou são formato tábua ou são formato barril? Pois é. Completamente normal. Mas eu me assustei. E minha mãe, uma pessoa maravilhosa com quem eu tenho uma relação maravilhosa e que só fez tudo para o meu bem na vida, quis me ajudar. Vamos deixar isso bem claro: ela fez o que ela achou que fosse ajuda. Ela pensou igualzinho a várias mães que responderam ao post de hoje. Ela pensou no meu bem. E eu sei disso, tá? Eu sei que a minha mãe não era uma pessoa cruel querendo me enfiar em um padrão a todo custo, do mesmo jeito que a maioria das que sugeriram abordagens assim também não são. Ela fez o que ela achou necessário para me ajudar. Mas eu também sei que a minha mãe é uma pessoa evoluída que gosta de saber das novidades. Graças a Deus, ela não é dessas que se prende aos anos 80 e fala coisas do tipo, “eu fiz isso há 30 anos e ninguém morreu.” Ela é dessas que evolui com o ritmo das novas informações. Então, eu vou contar o efeito que as escolhas da época tiveram.

Pouco antes de começar as dietas

Eu comecei dietas com endocrinologistas aos 9 anos. E hoje, a ciência já sabe que restrição desencadeia compulsão. Recomendo que pesquisem sobre alimentação intuitiva e nutrição comportamental. Isso é fato: restrição desencadeia compulsão. São muitos os estudos sobre o tema, abordando tanto o lado da psicologia quanto da nutrição. E muitos os profissionais que hoje falam sobre isso. Uma das mais famosas é a Sophie Deram, que eu recomendo imensamente.

Enfim. Voltando à minha história. Comecei com as dietas aos 9 anos. E assim, como tantas de nós, eu entrei no efeito sanfona. Fazia dieta, emagrecia horrores, parava a dieta, engordava horrores, repete. Sempre me achando gorda. Aos 18 anos, eu pesava 70kg (tenho 1,75m de altura) e queria pesar 65kg. Detalhe: cheguei aos 70kg depois de uma combinação de um ano de dieta com anfetaminas + 10 dias em um SPA com dieta de 600 calorias + um término de relacionamento que me fez ficar uma semana vomitando tudo que eu comia. Mas o que tinha me levado àquele peso não importava. Eu queria ser mais magra.

Anos depois, vi que eu na verdade estava ótima com 70 mas não tinha aproveitado. Por muito tempo, desejei outra decepção amorosa pra ver se eu emagrecia de novo.Então passava mais anos tentando voltar aos 70 dos 18 anos. Aos 25, eu tinha 75kg e, olhando as fotos, vejo que eu estava ainda mais magra que aos 18. Mas eu queria aqueles danados dos 70kg (na verdade, queria 67, tinha colocado esse número na cabeça, sei lá porque). E por aí foi. Eu fingia que esquecia de levar biquíni nos churrascos. Lembram a moda da calça jeans de cintura baixa com blusa baby-look, deixando uma faixa de barriga aparecendo? Nunca usei. E fui me sentindo cada vez pior. A depressão trazia compulsão. As dietas traziam depressão. E assim eu segui me achando horrível.

Então, deixa eu esclarecer: se, lá nos 18 anos, eu tivesse comido normalmente sem fazer dieta, eu provavelmente teria engordado um pouquinho e mantido. Alternando entre dias em que eu estou afim de comer uma salada e dias em que eu quero McDonalds. Talvez eu estivesse na casa dos 75 a 80 a vida inteira, com uma leve barriguinha, bem de boa. Provavelmente, a tendência era essa. Mas não foi assim. Foram anos de dietas. E anos de depressão. Anos me achando inferior. Eu vi um dia desses um comentário que dizia, “ah, aceitação é o menor dos problemas da obesidade.” Não, gente, não é. A depressão é o mal do século. A saúde mental é um problema sério. Transtorno alimentar é um problema sério. Basta ler o texto da Bárbara sobre relacionamentos abusivos. Engordar um pouco pode levar uma menina a ser um pouco gorda. Transtornos alimentares podem levar uma menina a se submeter a relacionamentos abusivos por achar que é inferior. Sério que uns pneuzinhos são mais graves que isso?

Então, pra todo mundo falando em saúde: sim. Foi um transtorno nada saudável que me levou à obesidade. Sim, para a maioria das pessoas é assim. Realmente, não é comum uma vida perfeitamente equilibrada levar à obesidade. Mas a obesidade não significa uma doença atual. Ser gorda hoje não significa que a pessoa precise mudar de vida. Estou me curando dos transtornos alimentares, mas já fiquei obesa depois de anos de compulsão. Não adianta julgar o meu peso. O que adianta é tentar ajudar a pessoa antes que ela passe 25 anos da vida dela como eu passei. Lembrando, também não é comum uma vida perfeitamente equilibrada levar ao nível de magreza que se espera hoje. O que leva a esse nível de magreza é o mesmo que leva à obesidade: o combo restrição-compulsão. Eu sou muito saudável para esses padrões básicos da medicina: pressão baixa, colesterol excelente, glicemia normal. Mas o psiquiátrico? É uma doença grave. Faz um ano que eu percebi isso. Faz um ano que eu luto contra meus transtornos alimentares. Faz um ano que eu não enfio dedo na garganta pra vomitar. Mas vocês acham que eu estou curada? De jeito nenhum. Nesse um ano, eu consegui algo inédito na minha vida: manter o peso. Sim, gente, é a isso que o equilíbrio leva. Nem perder, nem ganhar. Apenas manter equilíbrio. Eu passei por anos de compulsão. Fato. Hoje estou melhorando. Fato. Isso não significa emagrecer. Fato. Alimentação saudável não leva a extrema magreza.

Não oscilar o peso é uma vitória sem igual pra mim. Mas eu ainda não me livrei da compulsão. Ainda a tenho. Ainda tenho pensamentos de dieta. É um processo muito longo. E não é algo que eu quero para uma adolescente.

Nossa, que textão. Afinal, cadê a resposta da pergunta? Como falar com a menina que ela está engordando? Então, minha sugestão de como proceder.

1 – Saúde. Como algumas disseram, um ganho de peso exagerado e súbito pode ser sinal de algo hormonal. O post não deixou claro qual foi esse ganho. A menina era uma tábua e ganhou uns pneuzinhos no último ano? Normal. A menina ganhou 10kg em um mês? Melhor investigar. Sem focar no peso. “Fulana, você já está virando adulta, acho que precisa de check-ups anuais. Vou marcar o meu e o seu, ok?” Pronto. Ela já vai ao ginecologista? Se não, chegou a hora. Um check-up com qualquer bom clínico geral vai te dizer se existe algo a ser investigado. Não precisa de endocrinologista especializado em emagrecimento pra isso.

2 – Saúde de verdade. Sim, a de verdade. Inicialmente, diante do post, tive algumas dúvidas: Qual é a oferta de alimentos na casa? Qual é o hábito de praticar atividades físicas? Qual é a preocupação com o bem estar psicológico? São muitos os fatores. Mas sabe quais são os fatores que mais me importam? Se a menina se esconde com roupas largas. Se ela demonstra preocupação excessiva com a estética. Se ela come escondida.

Eu também comia. Comer escondido é um dos grandes sinais de transtorno alimentar. E sabe o que aumenta isso? Dieta. Pressão. Uma mãe que te fala que você precisa emagrecer.

Vou voltar lá na minha mãe. Depois que eu já tinha começado a fase de dietas, por volta dos 10 anos, minha mãe chegou pra mim com uma foto do meu aniversário de 7 anos. Ela me mostrou a foto e perguntou, “Olha só. O que estava bem mais bonito nessa foto?” Meus olhos já foram enchendo d’água. Eu fiquei na defensiva. A essa altura, eu já tinha a certeza de que o mundo me achava gorda, de que eu era mais feia. Eu nem consegui responder. Tinha certeza que a minha mãe ia me cobrar magreza.

Sabem o que era? A franja. Eu tinha franja aos 7 anos e aos 10 tinha resolvido deixar o cabelo inteirar e vivia com ele atrás da orelha. Ela queria que eu cortasse de novo. Era só a franja. Minha mãe nem lembra desse dia. Ela não achava que eu era uma gorda horrorosa. Mas com apenas um ano de dietas, eu já achava. E adolescente que come escondido também já acha. Porque senão ela não comeria escondido.

Quem come escondido considera essa paixão por junk food uma fraqueza, um pecado. Lembram das nossas avós que foram ensinadas que se masturbar era pecado, e chegavam na lua de mel sem nem saber o que ia acontecer? É bem nesse esquema. Só que hoje isso acontece com a comida.

Então, agora, dou a minha dica de verdade para as mães de adolescentes, pressupondo que não haja nada fisicamente errado com a menina. O que a mãe pode fazer para ajudar? Coma com ela. Compre uma barra de chocolate, sente no sofá, e fale, “Tem dias em que a gente precisa de um chocolate, né?” Não se julgue por sair da dieta. Não demonstre que você se sente inferior ao ceder à junk food. Não fale na frente da sua filha que você se sente feia se engordar. Não dê exemplos de mulheres que perderam o marido porque ficaram gordas demais. Não julgue as gordas. Deixe ela saber que tudo bem se um dia ela quiser porcaria, é gostoso mesmo. A ensine a ouvir o próprio corpo. Tenho certeza que também terá um dia em que ele pedirá salada, como o meu pede agora que eu o escuto. Dê o exemplo. Como em todas as áreas da criação de filhos, exemplo é tudo.

É difícil dar esse exemplo, eu bem sei. Depois conto aqui como eu tenho buscado mudar pelos meus filhos. Então, se precisar de ajuda profissional, comece pela terapia. Sempre a terapia. E, se ela pedir uma nutricionista, busque uma focada na nutrição comportamental. Pesquise sobre o tema.

E não digo isso só para as mães, mas para todas: por favor, vamos refletir. Por que a gente precisa passar uma vida se odiando? Cuidado com o que postam. Cuidado com os gatilhos de outras pessoas. Transtornos alimentares são doenças reais. As pessoas sofrem com isso. Cuidado com a dor do outro.

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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