COMPULSÃO, VERGONHA E PADRÕES: A CURA NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM

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GABI LESSA

 

Hoje eu comprei uma caixa de Amandita e comi sozinha. Agora estou aqui, morrendo de azia, e sofrendo por causa da minha compulsão ridícula. Eu sabia que meu estômago já estava ruim. Eu sabia que não ia me fazer bem. Eu já aprendi a identificar a compulsão. Então por que eu comi uma caixa em uma tarde? Porque não é tão simples assim.

Eu não ia falar nada a respeito. Vergonha vem de brinde com a compulsão, as duas sempre juntinhas. Mas eu percebi em mim uma nova vergonha. A vergonha do “todas as bulímicas da internet conseguem se curar e eu sou um fracasso completo que fico aqui pagando de blogueirinha consciente quando na verdade eu sou incapaz de me controlar. Eu vou morrer aos 300 quilos e servir de argumento pra toda a galera fitness que está doida pra provar que essa tal de alimentação intuitiva é desculpa de gorda sem vergonha.”

Ah, se fosse sem vergonha. Aí eu não teria usado a palavra “vergonha” quatro vezes em um parágrafo. Aí, talvez, eu já teria conversado mais sobre isso com psiquiatra, pisicólogo e nutricionista. Aí, talvez, eu não teria me escondido no quarto com uma caixa de Amandita.

É muito legal ver na internet nutricionistas mostrando que restrição leva à compulsão, ex-bulímicas recuperadas e tentando conscientizar as pessoas, essa doença sendo discutida abertamente. Mas não se enganem. Todo sucesso mostrado na internet tem seu poder de te fazer ver o seu fracasso. Porque a gente é cruel com a gente, né? A gente sabe que o objetivo do post sobre a pessoa que se curou (ou da dieta perfeita, ou da mãe que consegue fazer tudo, ou da profissional bem sucedida) é incentivar as pessoas. Mas a gente também sabe se julgar quando ninguém. E quando a pessoa alcança seu objetivo, por mais que a gente queira pensar “eu também consigo”, sempre tem aquele diabinho no nosso ombro falando “consegue nada, você não é tão boa quanto ela.”

Então é por isso que eu fui hoje ao psiquiatra. Falei que o meu sono não melhorou, que eu ando me sentindo apática, que as minhas mãos andam tremendo. Falei das crianças, dos amigos, de literatura. Pedi nova mudança na medicação. E não falei nada sobre compulsão alimentar. E saí dali com uma receita para um novo remédio, mas desanimada porque tantos tratamentos já não surtiram efeito. E entrei na farmácia para comprar remédio. E acabei, no impulso, comprando a tal caixa de Amandita. Cheguei em casa, e entrei pro quarto pra comer. E quando o marido chegou, mais cedo que de costume, ele viu lá a tal caixa pela metade em cima da cama. E assim que ele saiu, já coberta de vergonha, eu acabei com a tal caixa. E eu não ia falar nada com ninguém a respeito. Eu nunca falo. Porque se eu estava comendo escondida, o objetivo meio que é não falar.

Na verdade, é mais fácil falar do passado, né? “Nossa, gente, eu me achava gorda na adolescência. Por anos eu enfiei o dedo na garganta pra vomitar. Não enfio mais.”

Ok, não é fácil. Na verdade, é difícil pra caramba falar do passado. Mas eu percebi hoje que é menos difícil que falar do presente. É menos difícil contar o que eu fazia há 10 anos do que o que eu fiz hoje. Porque o que eu fazi há dez anos pode ter sido superado, pode ser uma grande lição. O que eu fiz hoje mostra que eu não superei foi nada. Eu sou um grande fracasso.

A verdade é que a gente fala das redes sociais, e parece que é uma divisão entre os mentirosos e os sinceros, né? Essa aqui fala a verdade, aquela ali te engana. Não acredite no que você vê nas redes sociais. Mas acredite em mim. Mas, bom, eu também não conto tudo. Confuso pra caramba!

A verdade é que não é necessariamente mentira. Tudo que eu já escrevi aqui é verdade. Eu já melhorei bastante. Sigo melhorando. Mas nada é uma cura simples. E por mais que a pessoa fale a verdade, ela não necessariamente está falando todas as verdades. Um post pode ser todo verdadeiro, mas ainda assim ele é um recorte, um momento. Ele não é tudo que aconteceu.

Esse post foi só pra falar que é normal se sentir um fracasso. Que é normal se comparar. Que quem está postando as conquistas também está se comparando. E, principalmente, que é normal não se curar magicamente da compulsão e da bulimia. Tudo é um processo, gente. E mesmo as verdades podem ser um pouco incompletas.

Ah, e também pra te lembrar de falar. Está passando por uma recaída? Fale com alguém. É melhor que se esconder até implodir.

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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