EU ODEIO TER QUE MILITAR

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GABI LESSA

 

Vendo os posts no Instagram, é fácil achar que as gordas que militam contra a gordofobia são muito mais bem resolvidas que você, né? Afinal, elas estão felizes como são. Você não é como elas. Você só queria ser normal. Logo, melhor fazer dieta pra tentar ser normal e admirar de longe essas gordas que lutam contra a gordofobia.

Pois eu vou confessar: eu também só queria ser normal. Eu queria caber perfeitamente num assento de classe econômica do avião. Eu queria não precisar convencer ninguém de que eu sou saudável. Eu queria não me ver pelos olhos dos outros o tempo todo. E principalmente, além de não querer ser gorda, eu não queria ser aquela gorda militante.

Sabe quando tem aquela mesa de mulheres e uma fala, “Ai, eu estou enorme, preciso de uma dieta urgente,” e todas riem? Pois é. Quando eu estou na mesa, não é assim. Uma faz esse comentário. Aí as outras dão aquela travada. Rola aquela troca de olhares desconfortável, do tipo, “merda, agora vai atiçar a Gabi.” Aí a que fez o comentário percebe, gagueja um pouco, e fala, “Bom, assim, não que tenha algum problema em ser gorda, mas é que…” E nessas horas, me dá uma vontade enorme de chorar. Não porque a pessoa me ofendeu. Mas porque é exaustivo.

Meu Deus, como eu queria ser normal. Eu até gosto de militar, sabe? Mas de militar à distância. Tipo o que eu faço contra a homofobia. Eu estudo, eu dou um toque nos amigos que passam dos limites com as piadinhas, eu explico, discuto, posto textão… Mas quando eu não estou afim de entrar em uma discussão, sabe o que acontece? Nada. Absolutamente nada. Eu sou heterossexual, casada com homem, filha de casal heterossexual. A homofobia que acontece no mundo me entristece e me faz querer lutar, claro. Mas a verdade é que não me afeta mesmo, não na prática. Eu tenho o privilégio da militância de fora. O privilégio de querer mudar o mundo sem ser diretamente afetada quando ele não muda. E te digo que a vida é infinitamente mais fácil assim, quando eu posso tirar a capa de militante e simplesmente ser padrão.

Eu luto, eu batalho, eu trabalho fora e dentro de mim para que o corpo gordo seja considerado normal. Mas enquanto não é, eu sofro. E eu desejo todos os dias que eu pudesse simplesmente ser normal. Sei lá. Ser naturalmente magra. Ou pelo menos não ser tão afetada por dietas. Ser uma mulher “normal” que vive de dieta e acha isso normal e não desenvolve um transtorno e uma depressão por causa disso. Nem queria vestir 34 não. Vestir 44 pra mim seria ótimo. Sentar numa cadeira com braço sem a bunda vazar pra fora, sabe? Não me sentir vigiada. E não ter aquela cutucada toda vez que um comentário gordofóbico vem à tona. Porque é uma m…

Eu arrisco dizer que a grande maioria dos militantes se sente assim. Mulheres, gays, negros, gordos, pessoas com deficiência. Todos queriam por um dia só não ter o peso da militância. Ninguém quer brigar não. Sabe essa ideia da pessoa raivosa que vive de mimimi e caça problema em tudo porque não consegue viver sem briga? Ah, gente, isso é balela. Pode até existir um ou outro assim, mas a verdade é que a grande maioria dos militantes não queria militar.

Dá próxima vez que você se olhar no espelho e pensar, “eu só queria ser normal,” meu amor, sinta-se abraçada. Você não é a única. Tá todo mundo querendo. Mas a verdade é que o normal é atípico pra caramba.

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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