A CRIANÇA GORDA E OS PERIGOS DA AUTOCONFIANÇA QUE VEM DO CORPO MAGRO

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GABI LESSA

 

O novo texto do apresentador Marcos Mion em sua coluna na Revista Crescer me deu um aperto no peito por todas as crianças gordas do mundo. Porque eu vi o que que eu já via lá nos anos 80: a intenção é boa, mas a abordagem pode fazer mais mal que bem.

Vamos deixar isso claro: eu tenho certeza que Mion tem boa intenção com esse texto. Afinal, ele escreve algo que sabemos que é importante: dê comida de verdade para seus filhos. É o que eu faço aqui em casa. Já falei várias vezes de como meus filhos só provaram doce aos 3 anos e não comem industrializados. Acho muito correta a preocupação com os processados cheios de químicos.

O problema aqui é o motivo. Mion começa o texto explicando que foi uma criança gorda e tinha vergonha de sua gordura. E que, quando se cansou daquilo, se exercitava com foco no Rocky Balboa. “Crianças que conseguem realizar uma mudança física que as deixam mais felizes com o que veem no espelho são munidas de uma autoconfiança sem igual,” diz o apresentador em seu texto. “É lindo de ver. São vitoriosas na vida, pois souberam lidar com adversidades. Eu digo por mim. Minha felicidade ao me ver com 13, 14 anos, em forma, sem camisa, tomando sol, pulando sem balançar a gordura no peito, foi a melhor sensação.”

E qual é o problema nisso?

O problema é que autoconfiança não deve vir do tipo físico. É algo que deve ser estimulado em nossos filhos independentemente de tamanho, forma, cor de pele, tipo de cabelo ou classe social. A pessoa que emagrece se sente mais feliz? Sim!!!! Sabe por que? Porque é horrível ser fora do padrão em um mundo gordofóbico. A criança se sente mais feliz porque ela deixa de ser diferente. Deixa de ser motivo de chacota. Deixa de ouvir comentários das outras crianças e até dos adultos que vigiam o seu prato. Ela deixa de ser errada aos olhos da sociedade. É muito mais fácil ser “normal”.

Só que a autoconfiança que depende do corpo magro não é sólida. Autoconfiança não pode ter condicionante. Essa pessoa passa a vida se vigiando. Se sai de férias e engorda um pouco? Se desespera. Se não consegue manter? Se acha mais fraca. Se todos os amigos podem comer de tudo nas férias e ela tem sempre que se controlar? Se sente injustiçada. Essa pessoa se sente sempre inferior, seja na força de vontade ou na loteria genética.

Para usar uma frase do texto do Mion: eu digo por mim!

Eu fui assim. Eu luto com essa inferioridade que eu sinto até hoje. Porque a preocupação da maioria das pessoas não é com a saúde. Não é só com o obeso mórbido que vive de fast food e tem pressão alta aos 8 anos. A sociedade se incomoda com cada pneuzinho. A pessoa um pouco mais gorda, que sai um pouco do padrão, como o próprio Mion conta, é perseguida por uma “vergonha acachapante.”

Então, sim, por favor, dê comidas saudáveis para os seus filhos. Os ensine a comer de tudo. Ensine que químicos fazem mal, que o que vem da horta é o melhor, que precisamos de equilíbrio na alimentação. Mas principalmente, os ensine que as pessoas são diferentes. Que existe gente muito magra e muito gorda. Que gordura não é motivo de vergonha e nem é necessariamente sinônimo de doença. Que a pessoa gorda não é mais fraca que a pessoa magra. Que ninguém é inferior a ninguém. E que amor próprio deve existir sempre, por quem a gente é, e não por estética.

Mion, a você, eu ofereço o meu abraço. Sinto muito que você tenha passado por isso na infância. Esse sentimento de inferioridade é terrível. Continue cuidando da sua saúde e da dos seus filhos, isso é muito importante. Mas te peço, dê uma lida nos textos de todos que sofrem com transtornos alimentares. Pesquise sobre como faz mal ouvir que é sempre mais saudável ser mais magro. Você passou por isso, cara. Você tremia de nervoso para tirar a camisa! Pensa no que essa fala te mostra. Eu sei que não foi a sua intenção. Tem coisa que está entranhada na gente. Como pai de uma criança portadora de deficiência, acho que você sabe que muitas vezes a gente não percebe o quanto os comentários podem afetar os outros, né? Espero que você consiga rever algumas palavras do seu texto. As boas intenções às vezes fazem mal.

Gabi Lessa

Gabi Lessa

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