UM POUQUINHO SOBRE LITERATURA INFANTO-JUVENIL POR UMA MÃE NERD

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Gabi Lessa

Gabi Lessa

Mulher, gorda, mãe de gêmeos, jornalista e nerd

Hoje eu vou sair um pouco dos tópicos normais do blog. Ia postar esse textão só na minha conta pessoal no Facebook, mas decidi que tem a ver com maternidade e resolvi postar aqui também. Tenho visto tantos posts com relação à literatura infanto-juvenil, muitos fazendo um certo terrorismo. Por isso, resolvi compartilhar um pouquinho do meu conhecimento profissional, que acho que pode ajudar. É longo, mas garanto que vale a pena, principalmente se as notícias de WhatsApp sobre livros inapropriados te assustam. 

Para quem não sabe, eu sou jornalista com mestrado em jornalismo narrativo e especialização em edição de livros. Apesar da minha formação jornalística, me enveredei pela área da ficção, que sempre foi uma paixão. Desde 2011, trabalho no mercado literário americano. Já estagiei em várias agências literárias, já trabalhei para uma editora de romances, e hoje trabalho diretamente com os autores como editora independente. Em um dos meus estágios, a agente disse que me considerava uma “expert em vozes infanto-juvenis”, e eu acabei me envolvendo bastante nessa área.

Nos EUA, a literatura infanto-juvenil é dividida em seis gêneros de acordo com idade, e existem orientações bem claras para cada gênero. No Brasil, apesar de não se falar explicitamente nesses gêneros, também podemos identificar cada um. Todos têm orientações da idade alvo e do que pode ser abordado em cada idade. Claro, não são regras engessadas. Mas dica: você não vai achar um livro de sexo explícito para crianças de 7 anos. É isso que eu quero mostrar aqui. Não existe enganação. Se você souber identificar a faixa etária do livro, você consegue saber o que ele pode conter e o que não pode.

Abaixo, vou explicar um pouco sobre esses gêneros e suas características. Vou usar os nomes americanos que são os mais definidos, mas é bem parecido em todo lugar. Assim, você pode escolher o mais apropriado para os seus filhos. Lembrando que isso é um resumão, tá? Não vou entrar em detalhes do mercado literário. 

Prontos? Quer as dicas? Então vamos lá!

PICTURE BOOK

Como o nome diz, são os livros que tem mais imagens que palavras. São histórias curtas com temas bem infantis, voltadas para bebês e crianças de 0 a 4 anos. São aqueles que costumam ter uma, no máximo duas frases para cada ilustração. Ou seja, tudo que é dito é ilustrado. Em geral são sobre bichinhos, crianças, sentimentos e sobre o mundo em geral. Não abordam temas complexos. (Alerta: existem livros de humor adultos que têm muitas imagens e poucas palavras. Eles não estarão na seção infantil. Se tem sexo ou palavrão, não é um Picture Book.)

EARLY READERS

São livros voltados para a idade de pré-alfabetização e alfabetização, ou seja, 4 a 7 anos. Esses livros têm desenhos, mas não chegam a ter um desenho para cada frase. Costuma ser uma ilustração para cada uma ou duas páginas, em geral com três a quatro parágrafos de texto para cada ilustração. O foco aqui é mais na estrutura de frases e na repetição de palavras. A maioria dos livros da Ruth Rocha e da Ana Maria Machado, por exemplo, se encaixam nessa categoria. Em geral, têm apenas um enredo principal e abordam temas com os quais as crianças possam se identificar.

Exemplos: Marcelo, Marmelo, Martelo, A Princesa que Escolhia, O Menino Marrom

CHAPTER BOOK

É a primeira categoria de literatura infanto-juvenil que tem capítulos. Isso significa que o livro já pode ter enredo principal e algum enredo secundário, mas ainda tem algumas ilustrações. É o passo que a criança precisa para chegar em romances infanto-juvenis (romance no sentido de livro de ficção, não de história de amor, tá?). São livros com capítulos curtos e não costumam ter muito mais que 100 páginas. Um dos mais clássicos é Matilda (aquele que virou filme na nossa infância). Sabe esses de humor mais bobinho, tipo Capitão Cueca? Também é Chapter Book. São histórias bem infantis, em geral focadas em personagens de 6 a 10 anos. Não abordam romance nem violência.

Como identificar: As capas em geral são ilustrações, costuma ser bem colorido. Não vai ter muito mais que 100 páginas. No começo de cada capítulo, provavelmente ainda haverá alguma ilustração, e às vezes até no meio do capítulo. Os personagens principais costumam ter no máximo 11 anos.

Exemplos: Capitão Cueca, Diário de um Banana, Matilda, Pippi Longstocking, Clementine

MIDDLE GRADE

É aqui que as diferenças ficam mais sutis. O Middle Grade é um gênero amplo, em geral voltado para as crianças do Ensino Fundamental. Por isso, muita gente o divide em Lower Middle Grade (8 a 10 anos) e Upper Middle Grade (11 a 14 anos). O Lower MG é bem similar ao Chapter Book em questão de tema. A diferença é que tem capítulos um pouco mais longos e menos (ou às vezes até nenhuma) ilustrações. Continua não tendo violência nem romance. No máximo um crush, mas sem beijo. Ainda é bem infantil.

Exemplos: Coleção A Casa na Árvore, Uma Dobra no Tempo, O Guia do Mochileiro das Galáxias, Extraordinário

O Upper MG, por sua vez, já começa a ficar um pouco mais pré-adolescente e pode ser mais complexo. O que isso significa? Vou dividir para as diferenças desse para o próximo gênero ficarem claras.

*ROMANCE: Já pode existir um interesse romântico. Sabe crush de quinta série? Pois é, isso é permitido aqui. Mas sem grandes demonstrações físicas. Se for um livro com personagem principal mais velho (13 ou 14 anos), pode até rolar um primeiro beijo. É bem condizente com a idade dos personagens. Eles começam a perceber que existe interesse no sexo oposto, começa a deixar de ser todo mundo igual brincando no parquinho. Mas é um interesse ingênuo, não é sexualizado.

*HOMOSSEXUALIDADE: Me entristece que isso ainda precise ser um tópico separado do romance, mas eu sei que estamos longe de um mundo ideal, então vamos lá. Ainda são raros livros MG que abordem o tema homossexualidade. Mas é possível sim que o tema seja abordado, porque, como dito acima, o interesse romântico começa a despertar. É plausível que uma criança de 12 ou 13 anos comece a perceber que seu interesse não é tanto no sexo oposto. Mas vale a mesma máxima para qualquer romance: não será um interesse sexualizado. É paixonite de quinta série, ponto final. O romance não se concretiza no Middle Grade. Nem romance hetero, nem homo.

*VIOLÊNCIA E SOFRIMENTO: Aqui já pode existir a menção de violência. Por exemplo, sabemos que os pais do Harry Potter foram assassinados. Mas a violência não acontece na página. Ou seja, não pode haver detalhes, não podemos “ver” a cena de alguém sendo assassinado. Mas pode existir o sofrimento da perda de alguém, a consciência de que a violência existe, o medo. Pode haver, inclusive, a morte de um personagem principal, como em Meu Primeiro Amor e Ponte para Terabítia.

Como identificar o gênero nas livrarias: As capas ainda costumam ser ilustrações, mas normalmente com menos informação, ou apenas o nome com uma fonte divertida e colorida. Em geral, terá no mínimo 150 páginas (Lower Middle Grade), sendo que o mais comum é entre 200 e 300 páginas. Se for fantasia, pode chegar a 400 páginas. Os personagens principais, normalmente, terão entre 8 e 14 anos.

Exemplos: Ponte para Terabítia, Harry Potter (livros 1 a 3), O Lar das Crianças Peculiares, O Jardim Secreto, Crônicas de Nárnia, Coleção Vagalume, A Droga da Obediência

YOUNG ADULT

A diferença entre Middle Grade e Young Adult é uma das mais importantes de se perceber, e uma das mais sutis. Os YA são livros maiores e é um gênero de maior sucesso. (Ou seja, a maioria dos que viram filmes famosos é YA.) O principal a saber é que a temática é adolescente. O YA é voltado para adolescentes do Ensino Médio (14 a 18 anos). Alguns são mais leves, em geral aqueles cujo o personagem principal tem 14 anos. Esses se assemelham bastante ao Upper MG, e não vejo problema em serem lidos por crianças de 11 a 13 anos se houver o interesse. Quanto mais velho o personagem fica, mais adolescente a temática. Vamos às diferenças.

*ROMANCE: No YA, o romance já costuma ser parte da história. Deixa de ser um interesse infantil para ser paixão. O YA permite que haja atração sexual. Os personagens começam a sentir aqueles “calores” quando o crush aparece. Se o romance for parte integral da história, pode haver cenas de beijos mais acalorados e o pensamento em sexo e virgindade (ou a perda dela). Em livros com personagens principais um pouco mais velhos (16 a 18 anos), se for parte integral da história, pode haver sexo. O que significa ser parte integral da história? Significa que não é sexo só por fazer. Tem que existir uma evolução que leve a isso, e a existência do sexo tem que mudar alguma coisa na história. Por exemplo, se no final um dos dois morre, em geral eles perdem a virgindade antes. Mas não pode haver sexo explícito. Ou seja, mesmo se houver sexo entre os personagens, ele não vai acontecer “na página”. Não temos, no YA, aquela descrição detalhada que temos em livros eróticos para adultos. Em geral é o beijo, o tirar a blusa, a decisão, deitou na cama…e acaba o capítulo e pula para o dia seguinte. Ou seja, a gente sabe que eles transaram, mas não mostra assim tão claramente. 

Outra coisa que muda no romance é que podem existir os grandes amores. Aquelas histórias de brigar com a família pelo grande amor, de lutar juntos, de um morrer pelo outro. Nada disso existe no MG, não tem paixões avassaladoras. No YA já tem. É bem adolescente mesmo, tudo bem dramático, o amor parece o único da vida, essas coisas.

*HOMOSSEXUALIDADE: Claro, no YA, se houver um personagem homossexual, passa a ser um tema importante. Novamente, segue a mesma lógica do romance. Se está todo mundo descobrindo sua sexualidade, o gay também está. Em geral, os personagens estão se percebendo gays, pensando em como contar para os pais, essa fase de descoberta. Mas existem também livros com romances entre adolescentes do mesmo sexo, com as mesmas regras do romance hetero. Pode haver beijo, atração sexual, e até a perda da virgindade, dependendo da idade dos personagens principais.

*VIOLÊNCIA E SOFRIMENTO: O YA já permite temas bem mais pesados. O exemplo mais claro da diferença entre MG e YA, para mim, é Harry Potter. Os livros 1 a 3, em geral, são classificados como MG, e não têm mortes na página. Os livros 4 a 7 já mostram assassinatos, mortes acontecendo na frente do personagem principal, sofrimento e ataques. Pensa na leveza de A Pedra Filosofal e o tom sombrio de Relíquias da Morte. É essa a diferença da violência entre MG e YA. Novamente, nada será explícito. Não vai ser morte a la Quentin Tarantino, e nem morte sem um motivo. Mas pode existir. Até o estupro já pode ser abordado no YA, se for parte integral da história.

Além da violência física, o YA já pode abordar vários temas que causam sofrimento em adolescentes. Bullying, drogas, transtornos alimentares. Tudo isso pode ser abordado no YA. Obviamente, nunca de forma a exaltar nada disso, mas sim mostrando que são parte das dificuldades enfrentadas pelos adolescentes. Lembrando que no YA, na grande maioria dos casos, a complexidade do tema acompanha a idade do personagem principal. As tramas com personagens de 14 e 15 anos serão mais leves.

É importante lembrar que, além da idade do personagem, o enredo de cada livro vai influenciar no tema abordado. Pegando novamente o exemplo do Harry Potter, por ser uma série que começou como MG, o tema violência/perigo fica mais forte quando ele já tem 17 anos. Mas o romance continua sem sexualidade, porque não se encaixaria no enredo. Um YA romântico provavelmente não vai ter grandes exemplos de violência, mas é mais provável que mencione sexo.

Como identificar o gênero nas livrarias: As capas serão mais clean. Podem ser uma foto ou uma ilustração única, muitas vezes em fundo escuro (como Crepúsculo). Vai ser mais grosso (em geral, mais de 300 páginas, podendo chegar a 700) e com letras menores, igual livro de adulto. Os personagens principais, normalmente, têm entre 14 e 18 anos.

Exemplos: Crepúsculo, Jogos Vorazes, A Culpa é das Estrelas, Percy Jackson, Para Todos os Garotos que Já Amei, Com Amor, Simon, Harry Potter (livros 4 a 7)

NEW ADULT

Bem similar ao YA, mas acompanha jovens em idade de faculdade. Costumam ser lidos por adolescentes de 16 a 19 anos, por fazerem uma transição entre a adolescência e a vida adulta. A principal diferença do YA mais velho é que já pode haver sexo sem compromisso, sem ser tão pensado ou tão essencial à história. Não é um gênero de muito sucesso, já que fica meio espremido entre o YA e o adulto.

Exemplos: Corte de Rosas e Espinhos, Princesa de Papel

UFA! Bom, é isso. Essas são as diretrizes básicas do que pode existir em cada idade. Quer saber o que seu filho lê? Acho ótimo. Em vez de espalhar terrorismo no WhatsApp, siga essas dicas. Em geral, as mesmas valem para romances gráficos (quadrinhos). Aquelas maiores e mais caras da Marvel não são para o mesmo público que Turma da Mônica.

Saiba que são apenas orientações, tá? Existe muito MG com nenhuma menção de romance, e alguns que chegam a fazer adulto chorar. E a questão do número de páginas não pode ser levada a ferro e fogo, principalmente se tratando de livros brasileiros escritos há mais de 20 anos. Antigamente, existia essa crença de que adolescente não leria livro grande, então existem alguns Upper MG ou YA mais finos. 

Em geral, a dica da idade do personagem dá muito certo. Só não se esqueça de que nem todo livro com criança é infantil, tá? O Quarto de Jack, por exemplo, é um livro adulto narrado por uma criança. Atenha-se ao que você encontrar na seção infanto-juvenil. 

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